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Pediatria
Dr. Heber Hamilton Quintella

Por que ler para a criança de 0 a 6 anos é importante?

Os primeiros anos de vida de uma criança são fundamentais para seu desenvolvimento. Diversas pesquisas e estudos identificaram que a formação de conexões cerebrais é mais propícia nesse período, que se estende da gestação até por volta dos 5 anos de idade.

E mais que isso, há cada vez mais evidências de que a arquitetura do cérebro é constituída a partir das experiências vivenciadas. Por isso, é muito importante oferecer cuidado, afeto e estímulos o mais cedo possível à criança, até mesmo durante a gestação, para que ela possa desenvolver de forma plena habilidades como pensar, falar, aprender e conviver.

Um dos principais estímulos que pais e cuidadores podem oferecer à criança desde a gestação até os 6 anos é a leitura. Por isso a atividade de leitura parental se tornou recomendação médica no exterior e no Brasil. Segundo Evelio Cabrejo Parra, psicolinguista colombiano, vice-presidente da organização Ações Culturais contra as Exclusões e as Segregações (ACCES), em Paris, essa atividade é tão importante na primeira infância porque está ligada à faculdade da linguagem. “O bebê, ao nascer, já vem com a capacidade de escutar. Quando se lê para ele em voz alta ou se canta uma canção de ninar, ele se põe em posição de escuta. Isso quer dizer que está tratando de construir significado à sua maneira. Por isso, é necessário alimentar essas potencialidades desde o princípio da vida”, ressalta.

Além de auxiliar o processo de aquisição da linguagem, ampliando a capacidade linguística do bebê, a leitura também amplia o vínculo afetivo entre pais e filhos, fortalecendo a estrutura psíquica e emocional da criança, o que vai ser importante para que ele se sinta segura para construir seu caminho de autonomia e de relacionamento social.

Quando a leitura se dá em contexto de afeto, a cognição é favorecida, e a criança passa a identificar o ato de ler como atividade prazerosa, o que é essencial para que se torne hábito. E, nesse caso, um hábito que lhe trará benefícios não só no campo da aprendizagem, mas também na estruturação da sua personalidade.

De acordo com Patrícia Bohrer Pereira Leite, psicóloga clínica e psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise, coordenadora e assessora de projetos sociais e educacionais da organização A Cor da Letra (Centro de Estudos em Leitura, Literatura e Juventude), o afeto e a disponibilidade dos pais em transmitir a linguagem e as suas histórias aos filhos, por meio de leituras e outras formas de narrativas, é mais determinante na criação do hábito da leitura do que sua condição socioeconômica. “Em um trabalho que desenvolvemos com adolescentes de diferentes classes sociais e de diferentes regiões em São Paulo, o que distinguia esses jovens na sua relação com a leitura não era necessariamente o nível social, e sim as experiências que tinham vivido na infância com relação à transmissão da linguagem e da leitura com os pais”.

No projeto realizado, pais que, apesar de pouco instruídos e até, em alguns casos, analfabetos, mas que tiveram disponibilidade de presença e na transmissão de sua cultura, por meio de momentos em que contam suas histórias e da tradição popular, cantam e recitam cordéis aos filhos e até mostram a eles livros com figuras quando têm acesso, por exemplo, possibilitaram que as crianças estabelecesse interesse pela leitura e boa ligação com as práticas culturais que envolvem a linguagem. Por outro lado, pais que possuíam melhor grau de instrução, com acesso a mais recursos, porém sem tempo ou disponibilidade para conversar e ler com os filhos, em alguns casos, provocaram o efeito oposto, segundo a psicóloga.

 

Benefícios da leitura na primeira infância

 

- Fortalece o vínculo com quem lê para ela, os pais e outros familiares.

- Desenvolve a atenção, a concentração, o vocabulário, a memória e o raciocínio.

- Estimula a curiosidade, a imaginação e a criatividade.

- Ajuda a criança a perceber e a lidar com os sentimentos e as emoções.

- Possibilita à criança conhecer mais sobre o mundo e as pessoas.

- Favorece a aquisição do hábito de ouvir e ler histórias.

- Auxilia no desenvolvimento de empatia (a capacidade de colocar-se no lugar do outro).

- Desenvolve a extroversão, a amabilidade e a conscienciosidade (autoeficácia).

- Ajuda a minimizar problemas comportamentais, como agressividade, hiperatividade e comportamento arredio.

 

“Contar histórias sem livros também é uma prática importante, pois caracteriza um momento de extrema conexão entre a criança e o cuidador. Além do conteúdo que está endo passado, há troca de olhares e contato afetivo, que são muito importantes para a criança desde os primeiros meses de vida.”

 

O que é “ler” na primeira infância

 

E o que pode ser considerado “leitura” para bebês e crianças pequenas? De acordo com o médico pediatra Ricardo Halpern, presidente do Departamento de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a leitura na primeira infância tem uma definição mais ampla do que apenas ler em voz alta o que está nos livros.

“Contar histórias sem livros também é uma prática importante, pois caracteriza um momento de extrema conexão entre a criança e o cuidador. Além do conteúdo que está sendo passado, há troca de olhares e contato afetivo, que são muito importantes para a criança desde os primeiros meses de vida”, afirma Halpern. “Mesmo que a criança com poucos meses não consiga ainda compreender o significado das palavras, ela compreende as expressões faciais, o gesto de carinho e a suavidade do tom de voz. Por isso, esses são momentos de interação muitos significativos”, completa.

Cabrejo Parra explica que o bebê é muito sensível à entonação da voz, e é graças a ela que começa a construir significado. O especialista ressalta que a língua da vida cotidiana está cheia de ordens (“não mexa”, “escove os dentes” etc.). Por isso, é necessário oferecer às crianças outra língua, isto é, a da escuta, da leitura em voz alta. “Quando a criança está escutando com toda a liberdade, ela pensa no que pode e como pode, e apreende o que necessita”, explica.

“O bebê, ao nascer, já vem com a capacidade de escutar. Quando se lê para ele em voz alta ou se canta uma canção de ninar, ele se põe em posição de escuta. Isso quer dizer que está tratando de construir significado à sua maneira”.

E a literatura tem papel importante nessa construção de significado, porque apresenta às crianças a fantasia, por meio das personagens e das histórias narradas.

Assim, elas começam a usar a imaginação e a criatividade para lidar com sentimentos e emoções e vivenciar diferentes situações. Dessa forma, vão enriquecendo a ampliando suas experiências com o mundo que as cerca e com as pessoas com quem se relacionam, além de se conhecerem melhor.

“Para a criança se construir como sujeito, ela tem que calar muitas coisas. E entre os personagens das histórias sempre há aqueles que fazem pequenas transgressões. Então, ela pode viajar no deserto de ser um dos personagens sem estar fazendo mal a ninguém. É preciso deixar a criança viajar imaginariamente, tudo isso é muito importante para que ela se desenvolva”, afirma Cabrejo Parra.

Mesmo os pais que não sabem ler podem fazer isso por seus bebês, cantando canções de sua infância e contando as histórias orais da sua família ou lendas da sua comunidade. “Afinal, o livro surgiu há pouco tempo, mas o relato está ligado à origem da humanidade. E o relato tem um papel muito importante no desenvolvimento psíquico e cultural da criança”, diz o especialista. Por isso, é preciso oferecer à criança formas variadas de linguagem: as cantigas de roda e de ninar, os trava-línguas, as parlendas, as lendas, as narrativas da tradição oral popular, as rimas, os jogos e as brincadeiras.

 

A importância do texto escrito

 

- Apresenta frases completas, sem omissões típicas da fala.

- Respeita a concordância de tempo e dessa forma ajuda a compreender a ordem natural dos eventos.

- Utiliza algumas categorias gramaticais com maior frequência do que a fala, especialmente advérbios, preposições, conjunções e pronomes.

- Introduz personagens diversos, que permitem à criança sair de si e estabelecer de comportamentos, sentimentos e ações.

- Estimula e permite à criança memorizar, decorar, repetir palavras e frases, antecipar cenas e, dessa forma, ampliar seu repertoria semântico e sintático.

No entanto, a literatura tem papel fundamental no desenvolvimento da linguagem. Por isso, os livros devem fazer parte do universo do bebê desde o nascimento. “Os bebês são pequenos pesquisadores. Quando os pais estão lendo, eles descobrem a estrutura da linguagem e, pouco a pouco, percebem que são as imagens e as letras que fazem os pais contarem as histórias”, explica Patrícia Pereira Leite. Assim, a criança vai descobrindo, aos poucos, que as letras são símbolos e que os textos contêm significados.

 

A importância da oralidade

 

- Contribui para o desenvolvimento das relações sociais.

- Desenvolve habilidades como falar e escutar.

- Trabalha a pronúncia das palavras.

- Promove maior consciência fonológica.

- Permite à criança conhecer e apropriar-se do universo discursivo.

- Permite à criança sentir-se parte da comunidade a que ela pertence.

 

Além disso, os livros são objetos culturais importantes com os quais as crianças precisam se familiarizar desde cedo, já que terão de lidar com ele durante toda a vida – tanto no âmbito escolar quanto no âmbito profissional e pessoal. Segundo Cabrejo Parra, diversos estudos mostram que o fracasso em relação à aquisição da leitura e da escrita é maior entre as crianças de classes sociais em que não havia o hábito de ler livros. E isso ocorre porque, quando essas crianças vão à escola, não estão familiarizadas com o objeto livro e acabam sendo corrigidas o tempo todo pelo professor. “O livro se converte em uma fonte de angústia. Uma vez que isso acontece, a criança vai se fechando psiquicamente e depois pode não querer mais saber do livro. Isso pode levar ao fracasso de aprender a ler e a escrever”, revela.

Os livros de imagens são formas atraentes e interessantes de começar a ensinar as crianças a manusear esses objetos e a entender a estrutura das histórias. Eles expõem a criança ao mundo da linguagem de forma lúdica. “O bebê, aos quatro meses, já pode olhar as imagens de um livro, como a pessoa que lê para ele está olhando.  Então começa a realizar uma atividade compartilhada. E isso é muito importante, porque, de modo natural, quase como brincadeira, se está dando ao bebê uma maneira de interiorizar o léxico de formar que lhe permite pensar o mundo exterior. Afinal, a palavra “cavalo” não dá a forma do cavalo, é necessário mostrar-lhe a imagem do cavalo para que ele possa interiorizá-lo, explica Cabrejo Parra.

 

Estudos sobre a leitura na primeira infância

 

Diversos estudos científicos revelam que a intenção verbal entre a criança e seus pais ou cuidadores tem impacto no desenvolvimento da linguagem, na capacidade da criança de dar respostas verbais e na sua vocalização. “Além disso, também auxilia a criança para a prontidão escolar e no desenvolvimento cognitivo futuro. A estimulação cognitiva através de atividade como leitura e brincadeiras é importante para a aquisição de habilidades intelectuais no futuro”, relata Ricardo Halpern.

Segundo ele, um estudo realizado no Brasil com crianças de 2 anos de idade mostrou que entre os principais fatores de risco para atraso no desenvolvimento estavam questões como ausência de materiais de literatura infantil em casa e de alguém que pudesse contar histórias à criança na semana anterior à entrevista. “As crianças que não tinham livros em casa e aquelas a quem não haviam sido contadas histórias tinham duas vezes mais chance de apresentar atraso no desenvolvimento. Esse risco foi maior do que ter nascido com baixo peso”, afirma o médico.

 

Estudos sobre a leitura na primeira infância

 

A American Academy of Pediatric (AAP) divulgou em 2014 uma recomendação para que os pediatras promovam a leitura durante as consultas regulares desde a primeira infância até pelo menos o ingresso das crianças na pré-escola, inclusive com a oferta de livros infantis nos consultórios. Assim como a AAP, a SBP considera, entre as suas recomendações sobre promoção de saúde e prevenção de problemas, que o hábito de contar histórias para as crianças se constitui em uma das medidas mais importantes para seu desenvolvimento.

 

Veja, a seguir, o que a AAP e a SBP sugerem aos pediatras:

 

- Informem a todos os pais que ler em voz alta para seus filhos desde o nascimento pode enriquecer o relacionamento e as interações entre pais e filhos, o que aumenta o desenvolvimento social e emocional das crianças e, ao mesmo tempo, constrói circuitos cerebrais que as preparam para aprender as habilidades de linguagem e alfabetização.

 

- Orientem os pais a mostrar as ilustrações para a criança e depois deixar que ela mesma manuseie o livro. Isso enriquece o seu repertório e auxilia no desenvolvimento motor.

 

- Aconselhem a todos os pais que realizem atividades de leitura adequadas ao desenvolvimento de cada criança de forma que sejam prazerosas para os pais e aos filhos e que ofereçam uma rica exposição à linguagem e à escrita.

 

- Ofereçam livros variados cultural e linguisticamente, nas consultas e visitas a crianças em situação de risco e vulnerabilidade econômica, e identifiquem mecanismos para obtenção desses livros de forma que não se torne um encargo financeiro para as práticas do pediatra.

 

- Usem um amplo leque de opções para reforçar as recomendações, incluindo cartazes e materiais informativos para os pais, mas que sejam acessíveis também para aqueles com limitações de leitura e escrita, assim como informações sobre os endereços e os serviços oferecidos por bibliotecas públicas locais e sobre mecanismos de acesso à distribuição gratuita de livros.

 

- Atuem em parceria com outros atores da rede de atendimento à infância para influenciar políticas e mensagens nacionais que apoiem e promovem a leitura compartilhada na primeira infância.

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