Conteúdo para toda família

por onde

você anda?

Meíta Bardi, colunista

meitabardi@yahoo.com.br

RODOLFO BONIFÁCIO

 

Sou Rodolfo Bonifácio, filho de uma empregada doméstica que nasceu na roça, e de um carteiro que veio da Bahia, em pau-de-arara, neto de apanhador de café e de uma avó, doméstica, que rezava um Terço cantado, muito lindo. Tenho 29 anos, sou produtor cultural e empreendedor social, membro de uma das mais importantes organizações ligadas ao World Economic Forum.

 Uma observação: volte ao início e leia atentamente e coloque aí a minha felicidade - empregada doméstica, carteiro e apanhador de café, porque é assim que é para ser lido. Com orgulho. É simples e fantástica a família brasileira que resiste todos os dias.

São Paulo foi onde nasci, mas foi em Guaxupé que despertei para vida. Cheguei aos cinco anos de idade trazido por minha tia, Filomena Bonifácio, (que também é minha mãe) porque as condições não estavam boas na cidade grande. Voltei para o seio dos meus avós e tias e desfrutei de uma infância que é sonho para qualquer criança. Ainda lembro da sensação de chegar na casa da minha avó e sentir o calorzinho do fogão à lenha. Nessa época, minha avó Margarida das Dores já estava bem adoecida. Tenho certeza que meu avô, Vítor Belchior Bonifácio, morreu de tristeza por perder aos poucos o amor de sua vida. Seu respeito pela Margarida das Dores se assemelhava ao trato que damos para uma planta: cuidar, admirar, servir e amar. Foi vendo, durante mais de 15 anos, o corpo de sua flor adoecer que a tristeza tomou conta do seu coração e ele não resistiu.

Minha infância foi de grandes desafios, como a de 80% da população pobre do país, mas regada por muitos valores e sabedoria, mergulhado na natureza e amparado por pessoas fantásticas. Completei 17 anos e lembro direitinho das minhas últimas semanas na Escola Estadual Dr. Benedito Leite Ribeiro. A professora Vânia era nossa vice-diretora. Eu, muito preocupado com minhas notas em Matemática, tinha certeza que seria reprovado, pois sempre fui péssimo com os números. Tenho um respeito muito grande por todas essas memórias e pessoas. Estava triste, descendo as escadas e ela me perguntou, “Rodolfinho, você vai prestar vestibular?” Eu respondi que sim e que faria Administração, mas na verdade não sabia, estava completamente perdido, pensava em todos os cursos e nada daquilo fazia sentido, não tinha preparo para entrar em uma faculdade, muito menos pública. Dinheiro para pagar um cursinho, menos ainda, e certamente seria reprovado naquele ano...

 Foi então que ela falou, “Talvez Guaxupé não atenda mais às suas expectativas e sei que você ainda não sabe o que realmente faz sentido para você. Respeite seu tempo, confie no que está dentro de você, não tenha pressa, cresça e quando estiver grande cuide de quem estiver crescendo. Eu já vou estar bem velhinha, mas vou estar aqui como professora, porque é isso que amo fazer, então você volta e vem aqui me ver e contar todas as suas conquistas”.

Dois meses depois, estava eu em São Paulo começando a jornada. Agradeço aos professores que passaram pela minha vida, pois mesmo recebendo remunerações e reconhecimentos pífios, todos continuam edificando nossa sociedade. Não desejo que as pessoas precisem sair de Guaxupé para conquistar seus sonhos, mas me alegro com todos que saíram e estão contribuindo de alguma forma para a construção de um mundo melhor. Fiz Recursos Humanos, depois Relações Públicas e hoje estou graduando em “Arte: História, Crítica e Curadoria” pela PUC-SP.

É extremamente difícil para os jovens pobres que moram no interior lutar por aquilo que sonham, mas eles lutam. Não existe meritocracia. Ela é um mito que precisa ser combatido, que alimenta as desigualdades. A lei de sobrevivência do mais forte é que promove a exclusão de diversos setores da sociedade. Passei por muitos “perrengues”, mas falo disso com orgulho, sem vitimização. Só quem sabe o que é ter o dinheiro contado para pegar o ônibus de ida e de volta, vai entender... Saber que não existe a possibilidade de sentir vontade de comprar ou comer nada durante o trajeto, é desafiador. Como uma jovem que mora no Japi (região rural) pode competir com uma outra que tem condições de fazer inglês, francês, mandarim, tem sete refeições, faz judô e ainda tem plano de saúde? Mas estamos aí para isso: mudar essa realidade e transformar os “perrengues” em pontes para mais e mais gente conseguir atravessar. Sim, tive muita ajuda, das minhas mães Olga e Filomena e de diversos anjos que me acompanham.

Meu primeiro trabalho foi como lanterninha do Cine Teatro 14 Bis, para mim um dos espaços mais relevantes na transformação social do Sul de Minas, graças ao pensamento futurista do empreendedor social Mauri Palos. Meu antepenúltimo trabalho foi a implantação da maior rede de salas públicas de cinema das Américas. No primeiro ano levamos mais de 1 milhão de espectadores, das periferias de São Paulo, para assistir a uma sessão pela primeira vez. Gente pobre, que não tem “grana” para pagar nem meia entrada, nem pipoca; mães com seis filhos, vivendo com um salário mínimo e que nunca foram ao cinema, porque a cultura e a educação transformam a sociedade. Tive a oportunidade de trabalhar em um dos Centros Culturais mais relevantes e influentes desse país, um espaço que valoriza o coletivo, a diversidade e o pensamento crítico, o Instituto Cultural Israelita Brasileiro –Casa do Povo.

Hoje, como Produtor Cultural e Empreendedor Social, continuo realizando inúmeros projetos, todos com foco no acesso da população menos favorecida, economicamente, aos bens culturais. Ainda realizo, eventualmente, alguns trabalhos como ator para comerciais e mantenho alguns contratos com  a Localiza Hertz, Telesena e Oi. Sou membro da rede Global Shapers, uma iniciativa do Fórum Econômico Mundial, que atua em 171 países com mais de 8 mil membros, jovens que pensam global e agem local. Através dessa rede tenho o prazer de dialogar e trabalhar com nomes como Alison Klener, membro do Nexus Global, um jovem de 26 anos que tem voz na ONU, a atual deputada federal do PDT, Tábata Amaral, Douglas Giglioti, cofundador do Reconectta, Larisa Vilar co-fundadora do projeto Erva Mulher. Em julho desse ano, aconteceu na Amazônia o encontro nacional da nossa rede e tive a oportunidade de estar com Wadia Ait Hamza, chefe da comunidade global e membro da Aliança das Civilizações das Nações Unidades, tenho a alegria de partilhar saberes com Liziane Silva, fundadora e CEO da Ink e amiga do eterno presidente dos Estados Unidos Barack Obama, Miguel Dahora, atual curador do Hub-SP fundador projeto Designers Periféricos, Lina Lopez, ativista e membro da Girl Up, Nations Fondation, Maíra Andrade, da equipe de Inovação Social da Natura, esses são alguns dos 51 membros do nosso Hub-SP. Uma juventude potente e com grande influência da qual tenho orgulho de fazer parte. Todos esses lugares e pessoas me fazem lembrar e pensar que o fracasso em algum ponto é inevitável. E ele já se manifestou em diversos momentos da minha vida em vários níveis de intensidade. É impossível viver sem fracassar em alguma coisa e o mais incrível é que é possível prosseguir e fazer melhor. E não tem como ligar os pontos da vida olhando apenas para frente; você só pode ligá-los olhando para trás. Então, eu creio que, de alguma forma, os pontos que estarão ligados no futuro serão pontos que auxiliam a humanidade. Faz todo sentido seguir trabalhando, porque olho os meus companheiros e vejo que estão todos de mãos dadas. A minha maior conquista são as relações sólidas e verdadeiras que construí. Os projetos e trabalhos passam, mas as pessoas se eternizam dentro de nós.

 

Eu tenho um sonho

(“I have a dream”, em inglês)

 

Sabe que no dia 28 de agosto de 1963, nos Estados Unidos, essa pequena frase foi proclamada e até hoje é um símbolo da luta contra a segregação racial. Eu acredito que essas palavras entraram para história para definir o sonho de um futuro mais justo. Meus sonhos só poderão se materializar se realmente conseguirmos desfrutar de um mundo mais justo, parece utópico e bonitinho, mas é muito sério. Martin Luther King Jr. soprou essas palavras para o mundo todo. Lógico que eu tenho muitos sonhos materiais, quero uma casa melhor para a minha família, conhecer países diferentes, ganhar na lotofácil (a mega tá difícil), mas eles são muito pequenos diante dos sonhos que alimentam a nossa existência. Sonho com o dia em que as negras e negros do Brasil serão verdadeiramente respeitados, ocupando seu lugar de direito, ocupando espaços importantes como esse. Vivemos o momento em que nossa Luz volta a ocupar seu lugar de origem, ela se intensifica para fortalecer um novo coexistir, mostrando a potência da nossa ancestralidade, dos nossos traços e movimentos, do pensamento filosófico que herdamos, da arte de re-existir e fazer florescer, crescer e florescer. É hora de contar a história dos vencidos, que na verdade são os grandes vencedores, pois foram eles quem edificaram a existência de tudo o que existe nessa Terra chamada Brasil. Quero, sonho, trabalho pela equidade em todos os sentidos. E gente, existe preconceito sim! Das formas mais diversas possíveis, mas eu sonho que um dia eles não mais existirão. Sigo, seguimos trabalhando para transformar o sonho em realidade.

Em 2020, inauguro em São Paulo um importante espaço dedicado à Educação e Cultura.  São 12 anos de pensamentos, trabalho e espera para encontrar o momento ideal e ele chegou. Hoje, nesses mais de 12 anos de experiência nas áreas Administrativas, Produção Cultural e Eventos com carreira desenvolvida em empresas nacionais de iniciativa privada e instituições do terceiro setor como o Instituto 14 Bis de Educação e Cultura e com a parceria de outros três nomes muito importantes para mim e que carregam uma história de muitas lutas, teremos novidades para o próximo ano. E não posso escrever isso sem citá-los, Amanda Bimbatti, empreendedora social e fundadora da Amnie, Marineusa Medeiros, gestora pública, militante da educação e das causas do Povo Negro, Odilson Pires, ator, co-fundador da Casa 12 e um dos melhores chefes de cozinha da Bela Vista em São Paulo. Ninguém anda sozinho.

Leitores da Revista Mídia, bebam bastante água, plantem uma árvore e lembrem-se de que o medo será sempre um elemento presente na sua vida, você decide o quanto. Não passe a vida toda criando fantasmas se preocupando com o que vem depois da curva da estrada. Tudo que sempre será, está acontecendo agora, no exato momento em que você lê este texto, nas decisões que tomadas no presente. Ou nos unimos agora ou nos perderemos ainda mais. A primeira coisa que você pode fazer para melhorar nosso país, e sei que esse é um desejo coletivo, é cuidar amorosamente da sua vida, das pessoas que você ama, ajudando a resolver os problemas do seu bairro, buscando soluções e não conflitos. Mesmo passando por condições econômicas desafiadoras e preconceitos eu fico pensando nas palavras da amiga Liziane Silva “Que outro lugar mais incrível, todo mundo poderia estar se ao invés de batermos uns nos outros pensássemos em criar futuros desejáveis e todos se ajudassem”. Desejo que ao término dessa leitura que você possa resolver as suas pendências emocionais, se tiver; reconcilie-se consigo e com os outros; diga sempre o que você sente; cure-se; não acorde e vá direto para o celular; faça uma caminhada; use menos as redes sociais, não compartilhe mensagens antes de saber se é verdade aquela informação; celular na mesa do almoço, nem pensar; não perca tempo tirando tantas fotos. Celebre e guarde mais os momentos no coração e não na memória do celular; olhe para o céu todos os dias e agradeça. “Vocês, nós, o povo, têm o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vocês têm o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa.” (Charles Chaplin).

 

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