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SANTA CASA DE GUAXUPÉ COMPLETA 110 ANOS

APOIO CULTURAL

Irmandade, diretoria, corpo clínico e colaboradores estão empenhados na comemoração dos 110 anos da Santa Casa de Misericórdia de Guaxupé, que acontece no próximo dia 27 de setembro. Toda a história de um dos hospitais mais antigos da região está sendo levantada junto a arquivos da própria instituição e também através de médicos que atuaram no passado.

A história remonta a época da chegada do  primeiro trem a Guaxupé em 1904. Foi um marco de grande progresso com a chegada dos trilhos das estradas de ferro da Mogiana.  A Companhia (CIA) Mogiana, desde o começo de sua atuação, promoveu emprego para muitas pessoas. Os operários da Companhia, inicialmente, eram portugueses e com o tempo foram substituídos por trabalhadores brasileiros que adivinham de um serviço pesado com irrisória remuneração e sem a mínima garantia. Eram pessoas da roça, sendo a maioria silenciosa e retraída, eram submetidas a um trabalho, muitas vezes, sacrificado, que lhes traziam grande sofrimento. Sofrimento que vinha da má remuneração, excesso de trabalho, serviço perigoso que executavam, sobretudo, devido à carência de material que lhes desse segurança e ao desespero, quando o perigo em seu trabalho parecia eminente.

Diante de situações tão estressantes e precárias, com a construção da rede mineira, houve um surto de febre tifoide,  doença bacteriana associada a baixos níveis sócio-econômicos, situação precária de saneamento básico, higiene pessoal e ambiental entre os operários. Os acometidos pela doença tiveram que ser alojados em barracão da construção e cuidados pelo cozinheiro da turma, que foi,  Pio Damião.

Partindo da necessidade de se ter um hospital onde pudessem ser atendidos os doentes locais, surgiu então a idéia da construção de uma Santa Casa, na Vila de Guaxupé. Naquela época, a cidade era uma vila, do foro de Muzambinho. A sociedade era eminentemente ruralista, mas vivia nas fazendas que ao redor da igrejinha de Nossa Senhora das Dores. Na vila, funcionava o comércio.

O estacionamento dos animais das tropas forasteiras que chegavam à vila de Dores de Guaxupé, era em pastos cercados, localizados estrategicamente nas beiradas do lugar e onde houvesse boa aguada. Pertencente a um baiano, do qual não se sabe o nome, que morava só, pois sua família havia ficado na Bahia, era o Sítio onde se estabeleceu a Santa Casa, este primitivamente um desses pastos.

Um dia, sentindo vontade de voltar, ele trocou o terreno do pasto, que começava no alto da colina, então capela da Nossa Senhora Aparecida, e descia encosta abaixo, até no vale, atrás, “onde minas esparsas juntavam na água pras mulas cansadas”, com o Coronel Joaquim Augusto Ribeiro do Valle por  “dois mil réis” e mais uma mula para viagem. Mais tarde, foi este terreno que o Coronel Joaquim Augusto doou para patrimônio imobiliário da Santa Casa.

Com as primeiras idéias da construção de um hospital, percebe-se a direção para os mesmos moldes das antigas misericórdias. Partindo da idéia dos senhores João Augusto da Silva Penna, médico e lavrense, e Alfredo Ribeiro da Silva, fundou-se a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, o primeiro e, até hoje,  único hospital em Guaxupé.

À uma hora da tarde, no antigo largo do Rosário, hoje Avenida Conde Ribeiro do Valle, na casa de Antônio Costa de Oliveira, conhecido como Tonico Barbeiro, esses distintos cidadãos convocaram para uma reunião em 19 de julho de 1908.

 Com letras desenhadas, num livro de ata já bastante corroído pelas traças, amarelado e com alguns trechos de difícil compreensão, registrou-se a primeira reunião para exposição da idéia da fundação de uma Santa Casa de Misericórdia em Guaxupé:

Com a liderança do vigário Padre Nicephoro Correa de Moraes foram eleitas as comissões de cidadãos, senhoras e cavalheiros da localidade, a fim de angariar donativos para a execução da obra. Uma comissão foi nomeada e ficou incumbida da elaboração dos estatutos da Irmandade e da organização da planta e seu orçamento.

Em 27 de setembro de 1908, dois meses depois da primeira reunião, sob a então presidência do Cel. Antônio Costa Monteiro, nova reunião, era convocada para tomar conhecimento dos Estatutos, planta, orçamento e lista de donativos. Foram abordadas as somas angariadas pelos portadores de listas, o que trouxe grande entusiasmo aos idealizadores da Santa Casa, pois houve uma arrecadação de “doze contos novecentos e sessenta e dois mil réis”. A Assembleia optou então em iniciar a construção do edifício.

Dr. João da Silva Penna apresentou a planta e foi eleita a administração definitiva da Irmandade de Misericórdia:  Provedor: Cel. Joaquim Augusto Ribeiro do Valle;  Vice-Provedor: Dr. João da Silva Penna; Tesoureiro: Raphael Vômero; Secretário: Alfredo Ribeiro da Silva; Procurador: Bento Ribeiro Ferraz.  Como mesários ficaram:  Cel. Antônio Costa Monteiro, Dr. João Carlos de Magalhães Gomes, Major Francisco Anacleto de Rezende e Dr. Mário de Magalhães Gomes.

Até a década de 70, a direção interna da Santa Casa esteve nas mãos das Irmãs da Imaculada Conceição, que chegaram ao hospital em 1933. Fundada pela Madre Paulina, sendo o Espírito da Congregação ser de simplicidade, humildade e vida interior.  Desde a sua fundação, os princípios de solidariedade humana sempre impulsionaram os procedimentos da Santa Casa de Misericórdia de Guaxupé, com a missão de acolher e cuidar dos mais carentes. Sua trajetória é marcada pela caridade, dedicação e responsabilidade.

Hoje a Irmandade é gerida por uma Mesa Administrativa composta por Provedor, Tesoureiro, Secretário e um Conselho Consultivo com 5 membros efetivos, eleitos através de Assembleia Geral da Irmandade para um mandato de dois anos.

A Entidade não remunera os cargos de sua Diretoria, e do Conselho Consultivo e não distribuem lucros, dividendos, ou vantagens a dirigentes, mantenedores ou associados sob nenhuma forma de pretexto, sendo os resultados aplicados ao seu patrimônio.

EM ENTREVISTA, DR. SYLVIO RECORDOU O INÍCIO DE TUDO

Em setembro de 2008, a REVISTA MÍDIA entrevistou o médico Sylvio Ribeiro do Valle, filho e neto de médicos. Seu pai,  Dr. Mário Ribeiro do Valle, e seu avô, Dr. João Carlos Magalhães Gomes,  muito contribuíram com o hospital nas primeiras décadas de sua existência.

Sylvio conviveu de perto com a história do hospital, praticamente a vida toda. Na infância, acompanhava o trabalho do pai. Mais tarde, após tornar-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, com residência no Hospital das Clínicas da mesma faculdade, retornou a Guaxupé, onde atua até os dias de hoje.

“Meu pai, desde 1928 quando formou-se, atuou na Santa Casa de Guaxupé até a sua aposentadoria, que aconteceu em 1972. Nós temos uma tradição em Medicina, pois meu avô, Dr. João Carlos, pai da minha mãe,  era médico e também foi um dos fundadores do Hospital”, contou.

Antigamente, antes do surgimento das Santas Casas, o paciente que podia pagar e tinha dinheiro para comprar remédios era atendido em casa. Até mesmo as cirurgias eram feitas em mesas de cozinha. “Quando você lê a história da Medicina no Brasil de uma maneira geral, você comprova isso e, em Guaxupé, não foi diferente”, conta Sylvio.

Os partos eram feitos nas casas e a maioria feita por parteiras ou curiosas, como eram conhecidas.  “Só chama-se um médico quando elas não tinham condições de finalizar aquele parto. Era sempre uma cirurgia instrumental e precária. As cesáreas, tão comuns hoje, eram feitas só no desespero mesmo”, relembrou.  As Santas Casas foram criadas para atender aqueles que não podiam pagar, por isso, são chamadas de Misericórdia.

O médico  contou que a Santa Casa de Guaxupé havia sido fundada nos mesmos padrões das Santas Casas de Portugal e nos moldes dos hospitais de Paris. Na França, os hospitais se chamavam Hôtel  Dieu, ou seja, Hospedaria de Deus. “Só eram levados para lá pacientes que não tinham recursos financeiros nenhum e estavam prestes a morrer, ou seja, na hora de ir para Deus. Desta forma foi também criada a Santa Casa de Guaxupé, para atender aos pacientes que não tinham condição de pagar médicos ou comprar remédios”.

Na entrevista, Sylvio disse que na época da constituição da Santa Casa também estava em construção os trilhos da Rede Mineira de Viação. Houve uma epidemia de febre tifóide, doença infecciosa potencialmente grave, causada por uma bactéria, a Salmonella typhi. Grande parte dos trabalhadores contraiu a doença e  foram cuidados em um barracão pelo então cozinheiro da turma, Pio Damião e por sua esposa, Jerônima. Quando o hospital foi constituído, Pio Damião e Jerônima foram os primeiros funcionários. Somente em 1929 é que as irmãs de caridade vieram para Guaxupé para dirigir a Santa Casa.

“No final do governo de Getúlio Vargas, em 1949, quando a democracia foi retomada, o médico guaxupeano Joaquim Libânio Leite Ribeiro foi eleito Deputado Federal. Todo o dinheiro que ele recebia como deputado era doado para a Santa Casa. Esses recursos foram utilizados nas construções da maternidade, em 1950, e também do Posto de Puericultura, para cuidar de crianças. Tudo isso foi possível graças às doações dele”.

Quando inaugurou-se a Maternidade, em 1950, o deputado Joaquim Libânio já havia falecido, mas consta na placa de inauguração a frase em latin “era esse o meu desejo”, atestando o objetivo do benfeitor.  Com o passar dos anos e com a criação dos postos de saúde, o Posto de Puericultura perdeu sua função e, portanto, tornou-se um anfiteatro.

Até 1970 a Santa Casa era tida como uma instituição beneficente. Era comum que as pessoas se internassem e não pagassem. Desta forma, eram realizadas quermesses rotineiramente para angariar recursos para ajudar a manter o hospital, uma instituição para pobres. O que acontecia era que as pessoas que colaboraram com a quermesse também se achavam no direito de não pagar pelos serviços do hospital, o que dificultava ainda mais o quadro financeiro. Desta forma, foi implantado um sistema de gestão e o hospital passou a ser empresa.  “Foram  feitos a portaria e o pronto socorro. O hospital foi se organizando e sendo tratado como empresa e contratou-se uma administradora hospitalar. Foi quando o hospital começou a se expandir, crescer mais e apresentar melhorias que atendem o nosso povo, apesar da luta por recursos”.

Ele se recorda da famosa escada que dava acesso ao hospital. “Era um hospital pequeno no início. Na entrada da Santa Casa tinha uma escadaria que dificultava e muito o acesso de pacientes. Durante a minha provedoria a escada foi substituída por uma rampa de acesso”.

Os poucos médicos que tinham na época se desdobravam para atender todos os problemas da comunidade.  Sylvio fez muitos partos, muitas cesáreas, cuidou de braços quebrados, pois não tinham especialistas que fizessem tais procedimentos. Os clínicos gerais que faziam tudo e de tudo. Especialistas eram apenas o Dr. Roberto Magalhães Gomes, em ouvido, nariz, garganta e olhos, o Dr. Alberto Carlos Pereira Filho, em Raios-X e Laboratório, além do Dr. Benedito Leite Ribeiro que fazia a parte cirúrgica.

Para o saudoso Sylvio, a Santa Casa é uma extensão da casa de cada um que ali atua. “Vivemos ali grande parte do nosso dia, seja em operações, seja em assistência clinica. Espero que todos os médicos que ali trabalham pensem assim, pois é através desse trabalho que o hospital cresce cada dia mais. Temos tomografia, hemodiálise, enfim, praticamente todas as especialidade e tratamentos. Somente algumas especialidades mais sofisticadas não disponibilizamos. Trata-se de um hospital de grande importância para a região”.

OLAVO BARBOSA:

um dos maiores benfeitores

da Santa Casa de Guaxupé

O cafeicultor e pecuarista Olavo Barbosa está entre os mais ilustres “amigos da Santa Casa de Misericórdia de Guaxupé”. Ele faleceu em 29 de setembro de 2012 mas seu nobre legado continua vivo, sobretudo na continuação da visão do trabalho altruísta dos filhos.  A marca de Olavo está eternizada  em asilos, igrejas e, sobretudo, na Santa Casa de Misericórdia de Guaxupé. Na década de 80, o hospital já não tinha mais condições de abrigar tantos pacientes por falta de infraestrutura. Procurado pelo o provedor da época, Dr. Heber Quintella, o empresário atendeu ao chamado da cidade.  Ele custeou a construção e adquiriu o mobiliário para  24 apartamentos para o atendimento gratuito dos menos favorecidos, como acontece até os dias de hoje. No ano passado, a família fez toda a reforma no complexo com adequações e melhorias em todos os apartamentos. Também foi doado por Olavo os potentes geradores de energia que entram em operação em casos de falta de energia, dando total  tranquilidade a médicos e pacientes,  A generosidade também alcançou os doentes renais crônicos de Guaxupé. A doação de Olavo Barbosa foi decisiva para o início das operações do Centro Regional de Hemodiálise que, atualmente, atende centenas de pacientes de toda a região.

Sempre discreto, ele jamais concedeu entrevista alguma a respeito do seu trabalho social. Mas a cidade reconhece sua grandiosa contribuição para a vida das pessoas.

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